Silvio Rotilli Filho, CEO e cofundador da Auper. Crédito da foto: Divulgação
A motocicleta é um dos componentes mais importantes do setor logístico. É sobre ela que os profissionais de last mile (etapa final da logística de entrega) trabalham por longas horas todos os dias, enfrentando calor, chuva e trânsito intenso para garantir que os pedidos cheguem no prazo. A pergunta que fica é por que, em um mercado em expansão acelerada, a principal ferramenta de trabalho de quase meio milhão de profissionais ainda é tratada como um simples veículo de locomoção, e não como o equipamento de trabalho que de fato é. Mais de 455 mil brasileiros trabalham como entregadores por aplicativo, segundo dados do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). No ano passado, o mercado registrou o melhor resultado de sua história, com 2,19 milhões de motos emplacadas, alta de 17,1% em relação a 2024, de acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo). Um crescimento dessa magnitude não é apenas um indicador de mercado, mas a prova de que a motocicleta não pode mais ser vista apenas como um veículo de locomoção, e sim uma verdadeira ferramenta de trabalho. Nas últimas décadas, a evolução das ferramentas e maquinário industriais reduziu os acidentes de operação em cerca de 32% entre 1992 e 2010 nos EUA, segundo estudo do National Institute for Occupational Safety and Health com base em dados do Bureau of Labor Statistics. Enquanto isso, as motos não apresentaram evolução significativa para o uso do dia a dia, e tampouco para o público que trabalha em ritmo intenso sobre duas rodas. Silvio Rotilli Filho, CEO e cofundador da Auper, empresa brasileira especializada em tecnologia e mobilidade elétrica, e Ph.D. em Engenharia Elétrica pela McMaster University, observa um padrão no mercado que o preocupa. “Quando escolhemos uma ferramenta de trabalho para uso pessoal, como um notebook ou cadeira de escritório, não escolhemos apenas a opção mais barata. Fazemos um balanço de custo-benefício com o produto cuja qualidade, conforto e performance atenderão ao que precisamos. Quando falamos do entregador, a ferramenta dele é a motocicleta, e a falta de segurança coloca vidas em risco todos os dias.” Atualmente, a Auper está em fase de testes dos seus veículos com entregadores de aplicativos de delivery. Rotilli diz que “muitas vezes, quando propomos uma moto melhor, mais segura, tecnológica e confortável, a primeira reação é de que ‘ela é boa demais para quem trabalha com entregas’. Acho isso perturbador. Por que razão o profissional que passa longas horas por dia sobre esse veículo não o merece? Quando a ferramenta é nossa, exige-se qualidade, performance e segurança. Quando é a do entregador, o critério é outro.” O especialista avalia que, ainda que existam motocicletas de boa qualidade no mercado, elas não foram concebidas com foco na redução do custo operacional, aumento da segurança, e no uso intenso dos entregadores - percorrendo centenas de quilômetros por dia, sob calor intenso, em vias irregulares, com paradas e acelerações constantes. “Esse trabalhador faz uma escolha de compra sobre o que está disponível no mercado hoje. Opções melhores com foco na solução destes problemas críticos devem existir, fazendo com que a escolha seja mais adequada para o trabalho que ele realiza", afirma. Para o executivo, a questão é mais ampla. "O setor de delivery cresceu, se profissionalizou e passou a movimentar bilhões. Mas o trabalhador que torna tudo isso possível ainda é tratado como um custo a ser minimizado, não como um profissional a ser valorizado. Quando uma indústria inteira naturaliza que quem mais depende de uma ferramenta é quem menos merece uma boa, algo está fundamentalmente errado. Esse custo a ser minimizado infelizmente vem com o incentivo à baixa segurança, menos conforto, e aumento do custo operacional com combustível e manutenção, que é pago no final do dia pelo próprio entregador. Isso não pode ser normalizado”, conclui o especialista.
Fonte: Gisele Gomes Comunica |
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